Os amantes do disco ‘Partido Muito Alto’, de 1980, poderão escutar suas músicas por meio de aplicativos de celulares
O paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982) testou lançar sambas à moda carioca enquanto se consolidava como o rei do coco, do xote, do ritmo nordestino.
Entre seus parceiros no fim dos anos 1950 estava um pernambucano chamado Bezerra da Silva (1927-2005), que o ajudava a compor cocos enquanto vagava sem rumo entre o morro do Cantagalo e a praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Em 1975, Jackson orientou a gravação do álbum de estreia de Bezerra, O Rei do Coco.
A história dá um pulo até os anos 1980, quando Bezerra (re)nasce não como rei do coco, mas como fábrica de sucessos populares em tempo de samba de partido-alto.
Mestre absoluto do gênero, viveu e morreu marginalizado pelo samba de raiz e pelas camadas mais cultas da cultura nacional, supostamente devido à apologia à violência (etc.) nos pagodes.
Antes dele, a mesma crítica reprovara os cocos de Jackson, como rejeitaria futuramente os raps paulistas e não paulistas (nos anos 1990) e os funks cariocas e não cariocas (dos anos 2000 até hoje).
Todos os discos de Bezerra da Silva serão disponibilizados de forma online pela Sony
Por vezes curador de preconceitos, o tempo atual flagra Bezerra morto, mas mais vivo do que nunca. A multinacional Sony ressuscita os primeiros anos do Bezerra partideiro e os disponibiliza pela primeira vez (apenas) em formato digital, em cinco títulos que agora circularão em streaming via Spotify, Deezer e Google Music e para downloads pagos pelo iTunes (US$ 10 cada volume).
A documentação da favela carioca nas décadas 1970-1990 resplandece nos subtextos daquele que já foi reduzido por nossa (in)consciência social a gênero “sambandido”. Os versos do hoje clássico Inferno Colorido (1980) são cabais: Em cada canto da cidade tem uma favela/ que não tem beleza nem riqueza também/ tem é um bocado de povo esquecido/ representando um inferno colorido.
Tampouco o aparentemente divertido Cipó Caboclo (1982) poderia ser mais direto: Cipó caboclo serviu pra amarrar nego no toco. À maneira dos inúmeros compositores que gravou, Bezerra foi operário da construção civil e pintor de paredes, antes de rei do coco e do partido alto “sambandido”.
Fonte: cartacapital.com.br